quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Pensamento torto

Passei muito tempo sem escrever. Os compromissos da vida nos fazem ficar mais intensos em coisas que talvez não mereçam tanto nossa atenção.. O jogo é conseguir entender o que realmente importa e direcionar as energias para os lugares certos. Canalizar o vulcão que somos pra atingir o que queremos.

Desde que parei com o blog, as mudanças foram tantas que não vou me dar ao trabalho de apagar os textos antigos, muito menos de ler o que escrevi antes. Talvez ache engraçado, talvez um lixo. O fato é que aqui eu escrevo o que tenho em mente, sem edição, sem antecedência ou tema. É agora, é hoje. Amanhã pode não ser, mas foi um dia, uma ideia que eu quis registrar.

Nas andanças, sempre agradeço pelas mudanças, pelas dificuldades. Elas nos elevam ao próximo nível, como passar uma fase, ganhar uma insígnia nova. Os problemas são as motivações. Algumas vezes me pego pensando que a vida é um jogo de resolução de problemas. Seja da maneira que preferir resolver os seus, o importante é tentar. E conseguir.

Tenho uma dificuldade enorme em focar em outras coisas quando coloco uma meta, um objetivo na minha frente. Desde pequeno, quando queria aprender algo, eu ia até o fim, do fim, do fim... Ainda hoje, quando foco em alguma atividade, profissional ou não, eu pesquiso, estudo, leio, disseco e espremo o limão até conseguir entender, reproduzir ou executar, nem que seja uma vez.

É claro que nem sempre isso é saudável. Já tive problemas por não saber a hora de descansar, a hora de ouvir e a hora de respeitar a mente e o corpo. Algo que talvez seja cíclico e nunca acabe, mas pelo menos consigo prever na maioria das vezes.

Sempre precisei escrever pra me livrar de pensamentos enormes e longos que habitam minha mente. Hoje, mesmo conseguindo filtrar melhor minhas opções, às vezes eles aparecem com vida própria. É por isso que pretendo voltar com os textos, talvez compartilhar de ideias que muitos de vocês também têm mas não encontram um lugar pra compartilhar, ou sentem vergonha.

Minha regra para o blog vai continuar sendo a mesma: não há regras. Posso escrever sobre balé clássico ou sexo selvagem. Quero migrar entre os diversos pensamentos que eu tenho guardados e opiniões que foram se formando, outras que estão em transformação.


Obrigado por ler, muita luz.

Diogo Ferrari


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

"Mil Grau"

Banho de sal grosso. Vou me rezar..

Talvez precise responder alguns e-mails na caixa de entrada, mas.. desculpe. Paro por aqui e amanhã é outro dia.

Sortudo. Porra, não reclamo! Nem acho certo.. tenho raiva de quem fica lamentando. Vou e faço, não consigo prestar atenção em quem fala teoria, muito menos viver nela. Como uma tatuagem, você não aprende olhando o tatuador. Tem que pegar na máquina e fazer.

Tem horas que é melhor parar. Desligar celular, pegar um bom livro.. "E assim falou Zaratustra" é o da vez. Comprei faz uma cara e não havia lido ainda por preguiça da linguagem. Mas recomendo.

"Respeito vem na frente do dinheiro". Racionais bombando a caixa há um tempo.. respeito por Mano Brown, tem que ser poeta SIM pra falar da rua. Criolo também ta na mira, segue o caminho.

Por muitas vezes entro em um ritmo frenético.. pode ser de trabalho, de exercícios ou encanado com alguma coisa.. e sair dela requer uma boa destreza que eu só estou pegando a manha agora.

É isso! Fico muito tempo em cima da mesma coisa até dissecar tudo que posso.. acho que são os fios de cabelo branco aparecendo.

Aprendi tanta coisa nesse tempo fazendo tatuagem que tento sintetizar quando fico pensativo. Histórias de pessoas que passaram e passam por mim.. aprendi muito mais do mundão do que muita gente que se diz dele. Aprendi sobre a lei da selva.

Cada vez mais admiro o silêncio. E é com ele que eu vou agora, chega de barulho por hoje.

Obrigado




sábado, 9 de novembro de 2013

Inferno

Tomei dois goles de sono. Acho que era por volta de uma da manhã, talvez uma e meia.

Me aprofundei na escuridão que tinha tomado conta dos meus olhos. Talvez pelo tapa-olhos que uso pra dormir.. Qualquer claridade nessa hora me atrapalha.

Acontecimentos do dia me deixaram fora de órbita, comecei a caminhar por lugares estreitos, amplos. Tudo junto. Tudo escuro. Podia ouvir gritos, ver vultos. Cavei mais da terra onde pisava e fui descendo pela lama, apesar de eu estar seco.

Meu estômago revirava em loopings loucos. Não sabia ao certo onde estava, porque estava e o que eu era realmente naquele momento. Eu era forma, eu era escuro. Era nada.

Coração em batimentos calmos, apesar da mente funcionar ao contrário. Fui percebendo aos poucos que a baixa claridade me mostrava. Eram silhuetas, precisava compartilhar isso com alguém. Mas estava sozinho. Eu era sozinho. Sabe aquele lance de que nascemos e morremos sós? Foi assim. O sentimento era real.

Apesar de não querer, ia adiante, sempre rumo ao desconhecido. As silhuetas iam tornando-se mais claras, mais reais. Pude ver orgias, violentos encontros de corpos que moviam-se ao desespero, ao despreparo. A confusão era generalizada, embora um tanto organizada.

Sem consciência do que estaria fazendo ali e aonde exatamente o "ali" ficava, pude degustar da solidão escura. Não senti medo nem por um minuto. Mas sentia um peso estranho, precisava me livrar daquilo o mais rápido possível.

Me lembrei de pensamentos do meu dia. Confusos com as vozes de lembranças recentes, pensei estar errado, pensei estar exagerando. Mas não pensei estar louco. Não estava!

Aterrorizantes sentimentos de inércia e impotência eram piores do que as visões do lugar onde eu estava. Mas sabia que poderia sair de lá a qualquer momento, no MEU momento. Eu sairia e ficaria tudo bem.

Experimentei o gosto da escuridão. Ao mesmo tempo que me senti só, senti que era um caminho que precisava seguir, sabia me guiar. Sabia me controlar, mas precisava daquela limpeza. Sim, era uma limpeza.

Talvez pra ver que existem coisas piores, assim daria mais valor para os meus poucos problemas.

Me exorcizei. Renovei.

Acordo limpo, apesar da dor no estômago. Estou novo, mais forte que antes.


**Hoje, em especial, agradeço a querida Marly, minha professora de redação na época do colégio, que me dava a maior força e apoio. Faleceu nesta madrugada e dedico meus sentimentos a essa pessoa maravilhosa que foi. Meus sinceros AGRADECIMENTOS. Você foi importante na minha caminhada.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Pela fechadura

Pensou ter visto alguém passar. Chegou mais perto da porta, o corredor estava escuro pois não conseguia dormir com nenhuma luz ligada. Foi bem perto da fresta que se apresentava pra fora do quarto e colocou o rosto pra fora. Fitou um tempo o escuro.

Seus olhos se acostumavam com a escuridão da sala enquanto pensava ser coisa da sua cabeça. Mas a confirmação era um desafio. Sempre intriga um vulto dentro da sua própria casa. De fato, seus olhos não se acostumavam muito bem com a falta de iluminação.

Voltou, fechou a porta e caminhou até a cama. Pensativo. Mas uma pequena luz adentrou pela fechadura da porta. E sumiu. Correu até a porta e colocou um dos olhos na fechadura. Podia ver, e claro que não acreditava nisso, uma cena quase que burlesca. Cinta liga, meia calça, apenas. Na pequena poltrona da sala a mulher de pele lisa e macia se divertia sozinha.

Quase abriu a porta. Mas preferiu observar. A mulher estava na sua poltrona, aquela de assistir TV. E tocava-se quase que com perfeição. Coçou os olhos, que ardiam por não piscar diante da cena. Estar louco é bem diferente de ser louco. E foi nesse primeiro pensamento que acreditou estar bem longe da realidade.

Do outro lado da fechadura, não muito longe dali, aquela mulher ousada apoiava-se com uma das pernas no braço da cadeira. Divertia-se como se estivesse em sua própria casa, vez ou outra olhava em direção à porta, com vontade.

Do lado de trás da fechadura, sentia uma enorme vontade de abri-la. Por pouco não o fez. Tinha medo de aquela mulher na poltrona fosse embora, nunca mais voltasse. Enxergou unhas pintadas, que iam e vinham em movimentos orquestrados, excitantes. As mãos e nada mais. Desempenhavam um papel que ninguém mais ou nada mais poderia cumprir.

Vidrado, de boca aberta, concentrava-se e entrava na mesma onda gostosa da mulher enigmática. Ela parecia sentir o que ele sentia, tocar onde ele queria tocar. Foi assim que ficava mais à vontade, sorria de lado, apoiava as duas pernas nos braços da poltrona e olhava diretamente para a fechadura da porta.

Não era para a porta ou para a direção. Era nos olhos dele, do lado de dentro. Onde queria que ela estivesse.

E mesmo estando separados por alguns metros e uma porta fechada, a energia podia ser sentida, o calor e o suor. O movimento dos lábios e da língua aguçavam os sentidos e seus olhos, ela sabia o que fazer, entendia de alguma forma aquele poder. Jogou a cabeça pra trás, de leve. E assim ficou por mais um tempo. Mãos, unhas, cheiro e pele formavam aquela cena toda. Suspirou forte.

Do lado de trás da porta, também ofegante, conseguiu fechar os olhos por um segundo. Quanto os abriu novamente, ela não estava mais lá. A burlesca sabia que não podia alcançá-la. A burlesca sabia o que fazer e o fazia bem. Até de longe, levava jeito.






domingo, 14 de abril de 2013

Ilusão

Vai de teoria. Vai de gosto. Tanta gente descreve a vida de tantas formas que chega a ter graça. E pra eu achar graça não precisa muito, confesso. Mas precisa jeito. Precisa ter um tom, precisa chegar a mensagem.

Numa dessas em que te dou a mão, caminho do seu lado e os nossos olhos miram a mesma paisagem. A felicidade é uma questão de ser. O êxtase, o início, a descoberta. O conhecimento, o auto-conhecimento.

Dizem que serei punido. Outros, que tudo é uma grande bobagem. Uns temem, outros oram, tantos rezam. Acredita-se em uma grande ilusão, tipo Matrix. Acredita-se em carne, sangue, pele.

Te abraço forte e pegamos no sono. Daqueles onde acordamos no meio da noite, quando tudo parece que não está acontecendo. Mas você repousa lá, com seus grandes cílios. Cabeça encostada no meu ombro e percebo que tudo o mais, naquele momento, é que vira ilusão.

Volto a dormir. Mais tranquilo. Sonho com pessoas correndo de um lado para o outro, trabalhando por dinheiro pra comprar suas mixarias que consomem seu dinheiro, então resolvem trabalhar mais pra ganhar mais dinheiro. E esse pedaço de papel comanda os corações e mentes.

Acordo novamente e, por mais assustado que eu estivesse com as minhas visões, você está lá. Serena, respiração lenta. Me mostrando que não há o que temer, quando sei que a vida é mais que isso.

Respiro fundo. Penso em quantas pessoas que fazem o que não gostam e me considero sortudo. Porém, pra isso paguei um preço. O do risco. E ele é alto, ele te cobra. Ele te consome.

E não pense que fazendo o que gosta, não vai cair na rotina, não vai se pegar um dia fazendo as mesmas coisas que você odeia que façam na sua frente. Coisas que jamais veria-se capaz.

Mas estou lá. Não quero mais dormir. Talvez te olhar seja mais seguro. E se eu tiver outras visões tão loucas ou piores do que a primeira?

Fico fitando seu semblante. Talvez por muito tempo. Que, diga-se de passagem, é relativo. E Einstein estava certo o tempo todo. Deixa fluir, pensei. E o sono chegou, só que dessa vez não sonhei atrocidades, vi que o que realmente importa está guardado. E é pra todos que se dispõem a conhecer, a se olhar.

De manhã, você estava lá. Assim pensei que, sendo minha vida uma ilusão, é das mais bonitas.

Ponto pra mim.




domingo, 7 de abril de 2013

Um pouco só de sacanagem (parte 9)

O relógio marcava umas onze e pouco. Desde que a festa havia começado, o open-bar tornou tudo mais colorido, as pessoas dançavam e se conheciam. Estava um pouco cansado. Era uma sexta e, como um reles mortal, trabalhou duro pelo dia, fez até hora extra.

Conhecia uns poucos que acompanhava, às vezes umas vozes instigavam piadas de mal-gosto, outras comentavam sobre a mulher que passava do outro lado. Uns contavam vantagens, histórias impossíveis que, com o copo cheio, tornam-se lendas.

Foi a bar sozinho, a bebida era uísque com energético. A lei seca que se foda.. pensou. Pediu a bebida e, por algum motivo que não sabe dizer, o barman passou a bola para uma mulher ao lado que começou a preparar o copo. Deve ser a dona.

Observou por um tempo que as mãos eram delicadas, mas fixou-se no decote em V. E era grande, o decote. Não sabe há quanto tempo ficou atento no par de dois. Poderia dizer quantos pelinhos loiros havia contado.. Mas uma das mãos delicadas elevou o copo quase ao seu nariz e aquele cheiro típico de energético o trouxe a realidade.

Meio desconcertado, pegou o copo. Ficou segurando ali, parado. Mas agora fixava-se nos olhos de cílios grandes e, assim como o par anterior, eram belos.. Parece que foi algo em sintonia. Talvez ela também tenha tomado umas e outras enquanto trabalhava.. 

Perguntou se ele desejava mais alguma coisa. Não pensou muito.. Você! Pronto. Tinha falado e nem ele mesmo acreditava.. Ela lhe perguntou se sabia com quem estava falando. A cara pálida que deve ter feito depois dessa pergunta a fez rir alto. Então pode ver seus lábios mais descontraídos e percebeu que tudo era uma grande brincadeira..

Ela olhou em volta, chamou um dos barman que cuidava do pessoal. Cochichou algo em seu ouvido. Chegou mais perto e disse pra saírem daquele barulho. Claro.

Andaram pelo pequeno campo arejado com bancos, árvores, flores e um coreto. Ele, meio de pilequinho, não sabia o que falar.. ela o puxou para um canto, encostou na árvore e começaram a se beijar. Os lábios dela tinham um sabor diferente.. se é que pode-se dizer assim. Derrubado o copo no chão, quase vazio, pôde abraçá-la  e sentiu que o decote do vestido que usava não era só na frente.

Se beijavam, às vezes, quase violentamente. Gravata já não sabia onde estava, só notou quando ela começou a abrir com habilidade, os botões da sua camisa. Pôde sentir, pela ponta dos dedos, que estava indo pelo caminho certo.

Fecho, botão, zíper... Renda, vermelho, batom.

Aqueles pelinhos loiros antes contados com os olhos, agora eram entendidos pelas mãos que misturavam ansiedade com vontade. Mistura perigosa que era o combustível para alimentar o medo de serem vistos. A adrenalina era alta, talvez até se transformasse em pressa em alguns momentos.

Ela era objetiva. Sabia o que queria e o fazia com destreza. Não pensou muito em retribuir e puderam deixar suas roupas na grama, estavam já na parte mais escura da festa. Aquele lugar tipo canto. Sentiam-se adolescentes brincando escondidos, ferozes e ansiosos. Queriam descobrir, queriam libertar.

Fitou aqueles grandes olhos de novo, olhando pra ele como quem pede uma aprovação. Claro que tiveram. Ela riu, satisfeita. Gargalhou. Levantou-se e foi correndo colocar o vestido. Ele desacreditou. Precisaria de, ao menos vinte-e-quatro horas pra cair a ficha. Ficou um tempo parado e, quando voltou, apenas sua roupa no chão. Nem sinal dela.

Vestiu-se. Voltou a festa. Passou pelo som da pista de dança e o barulho que ouviam ao longe, agora pulsava bem de perto. Bem alto. Mirou no bar, lá estava. Olhou pra ela, que piscou e sorriu. Pegou o amigo pelo braço, que estava de carona, disse que tinham que ir embora naquele momento, que tinha uma puta história pra contar. Claro que o amigo duvidou. Amigo quer que você se foda com uma história dessas.. pensou. 

Chegou em casa atordoado.. Não teve nem coragem de subestimar o poder daquela mulher, quase não ouviu sua voz. Somente sons, onomatopeias gostosas que se misturavam com um sorriso bonito e sussurros indecifráveis. Sentou na sacada do prédio. Foi pegar o celular no bolso e encontrou um papel. Número de telefone. Só.

E não é que ainda passam o telefone?





quinta-feira, 4 de abril de 2013

Pecador

Fico pensando, às vezes, em como é conveniente ditar regras para serem usadas pelos outros. Com esse pensamento indo longe, é inevitável associar isso aos tais pecados que cometemos diariamente. Pecados, segundo manda a igreja, que fique claro.

São tantos anos de histórias onde as conveniências se encaixam perfeitamente onde há pessoas que temem o dia de amanhã e as que sabem conduzir a coisa. "Manda quem pode, obedece quem tem juízo". Essa frase é enraizada na história toda, no contexto político e religioso.

Quantos temem ao seu deus, quantos temem ao pastor. Quantos tem medo de ir para o inferno? Mas.. que inferno é esse e que paraíso buscamos? Por que "lá em cima" ou "lá em baixo"? E as brasas que vão queimar quem, em vida, pecar?

Me recuso a acreditar em algumas coisas que, pra mim, são tão claras.. mas na hora de expor o pensamento para alguns, percebo o quanto essa condução temente e marcada por futuras punições movem grande parte da humanidade. Ainda vivemos uma escravidão espiritual.

Pra você ter uma ideia, assista Laranja Mecânica. Ou, se já assistiu, entende o que eu digo. Substitua o gosto pela violência pelo fanatismo religioso. Pronto, temos uma reação química perigosa, com risco de explosão.

Veja bem, seguir uma religião e desenvolver a espiritualidade são coisas completamente distintas. Mas ditar regras, criar cenários, manipular a história da humanidade como convém... é um absurdo.

Mais absurdo ainda é a igreja tentando emplacar na política. Imagine você, se ela tivesse o poder de mudar leis? Cada um cuide do que lhe cabe. Se nem os políticos dão conta da demanda de um Brasil sofrido (os que lutam por algo, claro), imagine a igreja. Seria o caos? Com certeza.

Deixa, então, eu colocar pra ti o que acredito ser um verdadeiro pecado: quando, e somente quando, o seu prazer deriva do mal de alguém.

Conhecimento é a nossa arma.

Pra dar amor, basta estar vivo. E só.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sombra

Sigo, rumo ao silêncio. Ando apreciando-o bem mais do que antes, mesmo com alguma dificuldade ou outra pra dormir. Compreendo que é passageiro. Me livro das roupas do dia e sinto, por vezes, como se tivesse que juntar alguns cacos quebrados de partes que são minhas, mas não sei quais.

Ligo o chuveiro, quente. Entro numa de relaxar e tentar impor uma outra postura. Rindo da arte de poder ser eu mesmo. Sendo vários outros, quando convém. Na verdade, todos somos vários. Devido às circunstâncias ou ocasiões. É impossível, por exemplo, sermos os mesmos em uma festa entre amigos e no almoço de domingo com a família. A persona é moldada de acordo com o ambiente. Veja bem, há uma grande diferença entre falsidade e ocasião.. mas isso é tema pra outra hora.

Com a água quente caindo por cima do meu corpo, molhando as tatuagens e escorrendo pelos pés, me lembro de um documentário sobre uma tribo no Xingu, a Caibi. Segundo eles, os guerreiros da tribo que não tem tatuagens são guerreiros sem alma. Acho que estou bem de alma, penso. Extraímos forças das raízes mais submersas quando necessário.

O grande dilema, as grandes dúvidas. A fé move montanhas e se encontra dentro da mente e coração de cada um. Podemos nos apegar a guias, patuás, terços ou livros de auto-ajuda. Mas nada se moverá se não estiver dentro da sua mente. É isso! Antes, tenho que tê-las em mente. Acreditar que o caminho é aquele e, se por ventura, quiser desviar, tenho que ter a força. Pra mim, de Ogum. Pra você, algum outro amuleto ao qual se apegue..

Se eu conseguisse reproduzir um vídeo de tudo que se passa na minha mente, você teria que tirar férias pra assistir tudo. As figuras, os desejos, a espera e os medos.. tudo em uma caixa. Já disse minha avó que, se deitar, as ideias bagunçam lá dentro. Pois é. Talvez por isso o sono às vezes me foge. Deve ser pra tentar manter a cabeça no lugar, enquanto ela quer viajar para lugares que ainda não conheceu ou outros que queira voltar.

Termino, me enxugo com a toalha. Os pensamentos ainda soltos mas eu, por vezes, rio sozinho. Quem nunca fez uma careta ao espelho? Quem nunca treinou um diálogo, chegou na hora e não lembrava de mais nada?

Corro para o computador. Esse mesmo, do qual vos falo. Precisava tentar explicar os momentos de sombra. Sabe aquele conselho antigo: "vá pela sombra"? Prefiro que não.. não sei. Por vezes a sombra é tão escura que mal ilumina os passos ao redor. Peço luz, leio. Desligo a luz e espero o sono chegar. E o faz quando bem entende, diga-se de passagem.

Faço um pedido. Desejo luz e discernimento. E o que eu acho mais feio? É gente que vive chorando de barriga cheia.


Luz.





domingo, 24 de março de 2013

Contexto

Depois da movimentação agitada do dia tenso, do passeio, da ladeira. Corpo fechado, braços abertos pra receber os pensamentos soltos com os quais utilizo uma das minhas melhores armas: as letras. Escrevo de improviso, te desafio a pensar diferente. Quero que você pensa diferente. Imagine, proponha, duvide.

Me livro dos dogmas e regras, não me enquadro nelas. Tomo banho de sal grosso, acredito e desacredito. Questiono os teus deuses, defendo os meus. Escuto sons que talvez não existam. Mas estão próximos. Fico pensando se você continua lendo.. e por qual motivo. Fico imaginando se vai seguir até o final.. Não sei da tua cor, da tua vida.

Relaxo, faço o que gosto. Se não gosto, não faço e ponto. E se a vida for só essa? Ninguém, além de mim, garante o meu amanhã. Faço com gosto. Faço com tesão. Sei das minhas limitações e luto diariamente para quebrá-las. Quebro tudo quando for preciso, abraço o mundo quando o tamanho dos braços é o suficiente. Sem viver de aparência, sem fachada.

Fico puto, mas não fecho os olhos para o que não quero ver. Enxergo, pra poder falar. Olho nos olhos, vejo detalhes. Os seus, os meus. Cada um tem tanto pra oferecer mas talvez não saiba aproveitar. Cabe a quem tem coragem, mostrar pra que veio no mundo. Sem missão, fazer o bem por gostar e não porque vai ser punido caso contrário.

Corto a barra da minha roupa, não gosto de muita cor. Fico vestido, por vezes pelado. O que importa é o sentimento livre. O que importa é não padronizar. Não padronizo nada, não prometo o que não vou cumprir. E até, por vezes, posso prometer e depois desistir. Sou igual a você.

Fortaleço esse nosso laço através das letras. Te agradeço, te perdoo, sinto que há muito mais que posso fazer. E só pego no sono em dias em que tenho a clara certeza de ter dado o meu melhor e ter feito tudo o que eu desejei quando acordei, horas antes. Caso contrário, vou ficar me perguntando o porquê de não ter feito.

Se eu não concordar contigo, vou contestar. Quero testar até onde você vai pelo que prega. Quero saber porque concorda comigo, não só o contrário. Quero escutar você gritar, exorcizar  os seus demônios internos. que são piores do que os externos, pode ter certeza.

Me preocupo em exorcizar os meus. Medito, creio, descreio, não me acomodo. Mas também amo. Intensamente. Continuo crendo que o amor é a única saída digna pra humanidade. A única palavra que fala todas as línguas, o único sentimento que é capaz de criar e destruir.

Fico por aqui. Ou talvez por aí. 
Olha pro lado.




domingo, 17 de março de 2013

Dimensão

Pego no sono profundo.. induzido, confesso. Não sei quanto tempo depois, imagens começam a se formar em minha mente (ou fora dela) com uma precisão milimétrica. Me sinto leve de corpo, alma e companhia. Vi muitas pessoas em volta de uma fogueira.. se divertindo e, o mais importante, fazendo o que queriam sem ninguém para castrá-las.

Alguns se abraçavam, deitados na grama. Outros pulavam a fogueira desafiando o fogo a cumprir sua função de queimar. Pessoas vestidas, pessoas nuas, diversas raças. O elemento principal era um som de vozes e risadas que soavam tão bonitas quanto um mantra, talvez tambores e cordas acompanhassem. O som não era tão nítido quanto as imagens. Amigos, aqueles de verdade verdadeira.. Parentes, idem. Estavam presentes.

Como uma passagem que não me assustou, me vi sob o mar. Era noite e eu não encostava na água. Apenas deitado, mas ela não me molhava. Acho que flutuava. Sozinho. Na imensidão daquele mar negro pensei em tantas coisas que elevei a uma importância que não mereciam, tantas dimensões maiores que os simples problemas podiam tomar. Sem que tomassem conta, como aquele mar pronto para me engolir, entendi que aquela visão de céu estrelado que eu tinha naquela noite, era um sinal para continuar seguindo no que eu acredito.

Dando devidas proporções aos acontecimentos, senti o pôr do sol. De mãos dadas com a minha companheira de viagem, acordei em uma montanha daquelas onde a brisa é leve e gelada. Podíamos enxergar o mundo lá de cima. De fato, enxergávamos. Entendemos nossa dimensão no todo e o quanto eramos pequenos, porém, elementos fundamentais um ao outro. Demos risada de nós mesmos. Pela simples vontade de rir.

Andamos sob a enorme pedra. Entendemos o porquê de o sol nos acordar e a lua nos ninar todos os dias..

Quando acordei, percebi que estava um pouco cansado. Talvez tenha viajado mesmo por esses lugares. Mas não me lembrava da resposta final. É exatamente esse o ponto. Não podemos saber, senão talvez viveríamos com menos entusiasmo. E quando coloquei os pés no chão para me levantar, veio a dúvida: será que acordei ou agora que estou dormindo?



sábado, 9 de março de 2013

Tesão


Deitados na rede, no meio das árvores que balançavam à toa num dia quente. Daqueles que não se quer fazer nada, nem ver ninguém.. As vozes ao fundo, bem longe, já nada diziam, eram apenas barulhos abafados.

Percebeu que seus seios estavam um pouco de lado dentro do decote em V, próximos ao ombro dele. Evitou olhar assim, no meio daquele silêncio todo.. Não queria ser deselegante com aquela mulher que olhava para a copa das árvores e parecia pensar longe. Resolveu abraçá-la.

Não demorou para que ela retribuísse e o envolvesse em seus braços. Tocou seus lábios com certo receio de os seus não serem bem-vindos, mas foi pego de surpresa com a resposta dela. Sua boca estava quente o suficiente pra fazê-lo pirar..

Deram sorrisos tímidos até que seus lábios alcançassem seu pescoço, sua orelha, seus ombros.. Ela estava com uma blusinha preta, alças finas.. Abaixou-as para que pudesse descer lentamente para os seios, os mais bonitos que já tinha visto..

A brisa leve tocava a parte descoberta de sua blusa junto com os beijos dele que ficavam mais intensos a cada novo espaço de pele que era preenchido pelo calor de sua boca e mãos. Vozes já não se ouviam. Se houvesse mais alguém, nem saberiam mais. Ela, de olhos fechados para que nada mais atrapalhasse aquele momento, puxou a camisa dele de uma vez e o abraçou mais forte.

Ele sentia o calor debaixo dos seios dela, percorrendo, sentindo, cheirando sua barriga até o desabotoar do shortinho com os dentes. Subiu de novo, pra ter certeza de que nenhuma parte deixasse de ser beijada, ela o abraçou com as pernas e arranhou de leve suas costas..

Tirou seu shortinho e percebeu que não havia mais nada além dele, ela o conduziu com as mãos puxando de leve seus cabelos, para onde deveria ir agora. E foi, como nunca antes.. Ela puxava seu cabelo com mais força conforme ele deslizava por meio do seu tesão inconsequente..

Talvez tivessem ouvido alguém se aproximando, talvez não.. estavam em um outro mundo, separados por uma muralha invisível, ninguém podia alcançá-los.

Com um sussurro, enrijeceu seu corpo e o puxou de volta para perto, para que pudesse beijá-lo novamente,  com uma intensidade ainda maior que antes.. Ele então pode aguçar seus sentidos enquanto a rede balançava continuamente e seus corpos colados sentiam a energia que tudo aquilo transformava..

O vento voltou a soprar mais forte, ela puxou-o com mais força que antes, mordeu de leve sua orelha e relaxou.. Sentia uma eletricidade por todo o seu corpo, uma sensibilidade que nunca tinha sentido antes. Ficaram lá, por um bom tempo, sem trocar uma palavra.. O sol havia ido embora, eles demoraram para perceber..

Era hora do luau, se vestiram, saíram de mãos dadas e sentaram-se perto da fogueira.. Mas nenhum dos dois pensavam em nada mais.. A não ser voltar para a rede.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Mato

Lurdez. A Lurdinha. Gostava mesmo é de transar no mato. Tinha uma fixação por verde que até assustava os namorados. Conseguia uma conexão com a natureza, dizia ela, que não rolava com nenhum homem. Conseguia ir e vir até sozinha. Atrás da moita, literalmente.

Uma vez começou a sair com um rapaz, amigo meu. Começaram a morar juntos. Juntaram. Dizem as boas línguas que, certa vez, de tão cansado de trepar no quintal, o cara mandou construir um jardim de inverno dentro do quarto. Entre o quarto e a sala.

O bom, segundo ele, é que os colchões duravam séculos, já que a atividade rolava mesmo nesse tal jardim.

Só não havia percebido ainda, a Lurdinha, que no meio do matagal existiam algumas plantas artificiais. Numa vez, no meio da trepada de Tarzan com Jane, ela, na hora de revirar os olhinhos, reparou um caule meio estranho. Daqueles bem artificiais.

Parou no meio. Meu amigo, sem entender nada, ficou olhando, questionando. Ela, por sua vez, fazia vista grossa. Se trancou no banheiro (que por acaso, tinha um vaso de plantas do lado da pia) e começou a chorar, dizia que ele tinha acabado com a viagem dela. Viagem de naturalista. E ela jura de pé junto que nem tinha fumado um.

A coisa apertou, fez greve. Meu amigo estava quase mandando plantar um pinheiro no meio da sala, pra ver se a maria-sem-vergonha se atiçava novamente.

Levava flores, ela ignorava. Podava o jardim, ela nem elogiava.

A história acabou tendo um final meio trágico (pra não dizer cômico). Ele ficou com a casa. Ela, com o cacto mexicano.

Pode?

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Situação

- Salve, Cleiton!
- Fala, Chipanza, como tá?
- Tudo certo, meu querido.. Teodoro, aquela breja gelada!!
- E aí, irmãozinho, o que me conta de novo? Quanto tempo, cara!
- Pois é, andei dando uma sumida por uns tempos.. coisa de mulher grávida, sabe como é..
- Puuuutz, cara, é papai?!
- Pois é..
- E como foi?
- O processo?
- Não, porra, a gravidez, as sensações.. conta aí!
- Ah, foi bem complicado.. a Patty queria comer de tudo, até ponta de cotonete. Limpa, pelo menos..
- Putz..
- Daí pra pior, Chipanza.. começou assim. Sorvetinho de morango com chantili, ameixa com flocos, passas ao run, melancia com leite condensado..
- Sei..
- Daí passou pra cheese-burguer triplo com muito picles, pimenta então.. nem se fala. A hemorroida que o diga..
- Patty tem hemorroida?
- É, Cleiton, é..
- Porra, nunca me disse nada..
- E deveria?
- Bom.. nada não, continua! Teodorooo!!! Eu disse gelada, porra!!!! Recolhe essa aqui que xocou..
- Ah, daí foi seguindo pra parte do enjoo. No começo tava de boa, era com cheiro de perfume, parei de usar. Depois foi pra cheiro de amaciante, pedimos pra Cícera diminuir a quantidade. Depois foi de gasolina.
- Gasolina?
- É, não podia abastecer no posto com ela que já vomitava no chão. Só abria uma fresta da porta e despejava o que tinha comido no pé do frentista..
- Bom, pelo menos não era no carro..
- É, ás vezes não dava tempo.. Passei a sair de casa com um saco plástico..
- Complica assim, né..
- Nem me fala.
- E o sexo?
- Ah, o sexo.. acho que nem sei mais fazer isso, cara.. enjoou disso também.. e pior que eu tinha mor tara com esse negócio de grávida, sabe..
- E nem tentaram?
- Ah, tentar tentamos.. mas ela começou a passar mal, invocou com a cor da cueca que eu tava usando e que tava dando enjoo nela..
- Puta que pariu...
- É, Chipanza, o negócio fica sério quando rola uma gravidez.. Teodoro!!! Traz vodca!!
- Vai misturar, Cleiton?
- Vou dar uma afogada hoje.. pilequinho, sabe?
- E a Patty não liga?
- Nessas horas já deve ta dormindo abraçada com aquele travesseiro de grávida.. Negócio estranho pra cacete.. Já viu um?
- Vi não.. nem sabia que existia isso.
- Pois é.. parece uma linguiça gigante..
- Vibra?
- Não fode, Chipanza..
- Foi mal.. piadinha!
- Sei...
- Mas e aí, como que rola com a casa, o trabalho?
- Filho chora e mãe não vê, Chipanza.. o negócio ficou sério..
- Puta merda.. Mas tava na hora de ter filho já? Dois anos de namoro..
- Ah, Patty pediu, era meu ponto fraco..
- Como é que é isso aí??
- Ah.. naquela hora.. a gente tava numa noite meio selvagem, sabe.. óleo de massagem, incenso, hidromassagem.. a gente passou do ponto e quando eu tava lá, no meio da posição de ataque do tigre azul (coisa de kama-sutra), ela me sussurrou no ouvido: "Faz um filho em mim...". Pronto.. aquilo lá mexeu comigo e com o meu brother aqui.. e do jeito que foi pegou. Assim, de primeira.
- Caceta, hein, Cleiton.. cê é tanga frouxa mesmo.. mulher pede e você dá assim, um filho?! UM FILHO!!
- Calma, Chips.. eu sei da responsa e tal.. mas meu negócio é com mulher grávida.
- Ai meu Deus..
- Ah, esquece isso.. e você? Como vai a vida de solteiro??
- Bom, dou um bote aqui, outro ali.. saio na caça mas finjo que sou tímido. BLAU!
- Puta susto, Chipanza, cacete! Que que é BLAU, porra???
- Porra, Cleitão! Blau, mermão.. vou lá e chapisco o território.. as meninas ficam doidinhas.. perfume de feromônio. Parece estar funcionando. E você ta casado, nem dá um blau fora do penico mais..!
- Nem me fala.. Com essa história da Patty enjoar com tudo.. Meu PC ta parecendo um puteiro virtual..
- Teodoro! A saideira.. aquela.. trincando!!
- Puteiro virtual? Conta mais..
- Ah, esses sites merdinhas que a gente perde tempo de vez em quando, sabe? Das putonas?
- Sei..
- Então.. só que agora visito todo dia.. to até pagando carteirinha vip pra ver em HD e enquadramento especial..
- Como é?
- Enquadramento, porra.. da ação e tal..
- Ah, tendeu..
- Bom, acho que vou pedir a conta.. a Patty logo vai ligar pedindo pra eu levar barra de cereal e pasta de dente.. a última moda dela. Come tudo junto, numa tigela enorme...
- Cacete.. que bosta..
- Pois é.. Fecha a conta, Teodoro!!!
- Mas, vem cá, aquela história da hemorroida.. como que é mesmo?
- Ah, cê ta tirando com a minha paciência, né! Falta de respeito, porra..
- Só curiosidade.. é que eu ando sentindo umas queimações.. bom.. queria umas informações.
- Ah não, Chips.. a essa hora não dá..
- Tendeu.. Você já teve?
- Tive.. operei.
- Doeu?
- Anestesia, porra.. sente nada não..
- Ah.. É que..
- Ficamos assim?
- Bom, acho que dá pro gasto.
- A Patty só não pode desconfiar..
- Deixa comigo essa parte.. e vê se cuida desse.. desse seu problema aí..
- Quando resolver te aviso.. desculpa não rolar nada hoje..
- É nóis..
- Aquele abraço.. apertado..
- Porra, Chips, pára com essa merda aqui na frente de todo mundo. Aperto de mão e cada um pro seu lado. Quer me comprometer???
- Ah.. é a saudade.. mas tudo bem, meia noite na webcam.
- Fechou.

Teodoro sabe de cada coisa...




terça-feira, 16 de outubro de 2012

Confissão

Estava um tempo "chove-não-molha" do lado de fora da igreja. Padre Everaldo comia osteas dentro do confessionário. Sem ninguém saber, claro. Ou faziam vista grossa, já que ele era o querido das confissões.
Além de osteas, molho de pimenta árabe. Só pra acompanhar.

Marco Antônio chegou esbaforido na igreja já enroscando a jaqueta na maçaneta da porta. Everaldo imaginou, pelo barulho e silhueta, que era ele. Os pelos do braço arrepiaram, pigarreou e limpou os dentes, embora ninguém pudesse vê-los.

Marco não confessava havia dois anos. Virou ateu por esse período, pouco antes de ver sua sogra morrer engasgada com bolinho-de-arroz. Estavam sozinhos na casa dele. A mulher jamais o perdoou, achava que tinha realmente matado a velha. Pediu divórcio. Marco passou a beber. Nunca mais fritou bolinhos-de-arroz, sua especialidade na época.

Abriu a porta do confessionário, sentou-se, ainda molhado.
- Padre Everaldo?!
- Sim, meu filho, Deus o abençoe. Que mandas?
- Pô, Aldo (era assim que o chamava antes de virar ateu), to com uns pepinos aí.. acho que pequei.
- Me explica melhor, Tonho..
- Sabe o que foi, Aldo.. desde que vi minha sogra morrer engasgada com o bolinho-de-arroz, uma especialidade minha na cozinha, diga-se de passagem, o trauma foi forte. Minha vida mudou e nem mais em Deus quis confiar meus problemas...
- O demônio aproveitou para se apossar, meu filho, ele chega nessas horas.. continue.
- Então, o bolinho demoníaco entrou em minha vida dessa forma traiçoeira. Depois que a Celina me abandonou achando que eu matei a velha, comecei a ter sonhos terríveis!!
- Hun, fale mais, meu filho..
- Sonhava com a minha sogra correndo atrás de mim, espumando pela boca e arremessando bolinhos-de-arroz, atrás dela vinha a Celina com a cruz e atrás da cruz, o Beraldo.
- Quem?!
- Beraldo, Aldo, o cozinheiro que me passou a receita dos bolinhos e que, mais tarde, descobri que a Celina caía de boca não só nos pratos que ele fazia.
- Santo Deus..
- Pois é.. E tem coisa pior ainda. Fiquei carente, sabe como é, um ano inteirinho sozinho...
- Pecou aí?
- Calma, ainda não. Fui atrás de uma profissional, sabe.. do sexo.
- Puta, Tonho?!
- Não! Profissional do sexo, Aldo! Olha o modo de falar...
- Sei.. e o que aconteceu depois disso?!
- Bom, no começo eu ia até o motel com ela e conversávamos. Muito. Essas profissionais são umas belas psicólogas às vezes. Colocam a gente lá em cima, sabe..
- Não..
- Bom, enfim, conversamos muito. Umas doze idas de conversa no motel. Até que começou a rolar uma confiança e me deixei levar.
- Mas pagou por sexo?
- É.. uma hora eu não aguentei, Aldo, a moça lá peladinha da silva já sem paciência com as minhas conversas de carência e decepção amorosa.. Acabou me atacando. A moça sabia fazer o lance todo e eu achei que fosse morrer. Mas foram passando os encontros, a gente foi se afinando..
- Afinando?
- Criando afinidade, Aldo. Os gostos batiam.. sabe como é, né..
- Não.
- Porra, é modo de dizer!!!
- Ah sim, claro, continue..
- Até que ela me chamou para o flat dela... conhecer. Ela estava de mudança e queria que eu ajudasse na decoração. Fui. No bolso levei um azulzinho pra garantir. Idade, né, Aldo.. você nem sempre pode contar com aquela amizade firme de antes com o Tinoco.
- Tinoco?!
- Bom, esquece essa parte. Fui pra casa da moça. Estela era o nome dela. O artístico era Space Girl.
- Ave Maria..
- Pois foi exatamente isso! Rezei, como há muito tempo não fazia, uma Ave Maria! Só pra garantir.. pra quem já havia voltado a crer, tinha noção de que estava pecando.
- Subi no flat. Ela estava limpando as coisas.. de calcinha! Só de calcinha, Aldo.. Aí é pra quebrar a banca, né? Pedi um copo d'água.
- Pra tomar o azulzinho?
- Isso.
- Tomei. Escondido, claro.
- Pelas minhas contas, tu vai ter que rezar muito pra enfrentar o demônio..
- Calma, Aldo, tem mais. A gente acabou se pegando ali mesmo, na sala, rolando no tapete persa dela de um lado para o outro na nave da Space Girl. Aí já viu. Bateu a fome.
- Mais?
- Não, Aldo, fome de comida mesmo, porra!
- Ah sim, claro.. continue..
- Ela sugeriu que eu fosse tomar um banho que ela ia cozinhar algo pra nós dois. Ela também estava caidinha por mim, nem cobrava havia uns três meses. Mas do chuveiro comecei a sentir um cheiro bem familiar..
- De quê?
- Bolinho-de-arroz. Claro que pensei que fosse um lapso da minha síndrome do pânico atacando. Mas quando eu saí do chuveiro, padre.. de toalha mesmo, vi os benditos fritinhos em cima da mesa. Comecei a suar frio e quando Estela me viu, foi logo me socorrer. Mas não quis contar o que estava acontecendo e ela disse que era fome. Nos sentamos à mesa..
- Ai meu Deus..
- Até aí tudo bem. O problema era fazer desfeita com a merda dos bolinhos.. comi um. Tudo bem. Até que.. vai vendo a maldição, Aldo: a Estela começou a tossir e não parava mais!! Tossia e esbugalhava os olhinhos, bebia vinho mas não adiantava nada. Fiquei louco. Comecei a bater nas costas dela, sacudir, balançar a cabeça.. acho que me esforcei tanto que..
- Que...?
- Acho que matei a puta, seu Aldo.
- Ah, agora é puta?
- Ah sim, me desculpa, Estela.
- Puta merda, hein, Tonho?! Desse jeito a coisa fica séria.. E a moça? O que que você fez?
- Saí correndo, Aldo. Como uma moça, na ponta do pé. Pulei o muro da garagem pro porteiro não me ver. Pequei, padre... muito!
- É... mas foi logo querer casar com puta, Tonho! Pera aí, deixa eu calcular a penitência.. Tem calculadora científica aí?
- Não fode, Aldo.. pô, e a amizade?
- Está crendo novamente?
- Sim!
- Na hora do aperto..
- Aldo, vai, me diz o que eu tenho que fazer logo pra Deus me perdoar. Tenho um medo dos infernos do demônio querer me puxar pra baixo quando eu morrer.. até choro de pensar.
- Anota aí. Vinte vezes o pai-nosso, vinte vezes ave-maria, ajoelhado no milho. E uma doação de ostea para a igreja.
- Ostea??
- Isso. Ah, e molho de pimenta árabe. Sabe como é, o bispo vem fazer visita no fim do mês e ele adora um molhinho desses...
- Pô, Aldo.. acha que assim Deus vai me perdoar??
- Olha.. veja bem, Tonho. O pecado foi forte, né?
- Eu sei, padre.. dá uma força aí porque eu já to sentindo o calor do inferno aqui na sola do pé!!
- Bom, vou ver o que eu posso fazer.. e vê se não me apronta mais com puta hein. Quer dizer, com ninguém!
- Ta bom, Aldo.. vou fazer o que me pediu.. lá no milho.

Foi saindo do confessionário em direção a saída. Quando Everaldo lhe chama.

-Tonho! As osteas, as osteas!!
- Deixa comigo!



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Carne

O cheiro de gente morta já não fazia tanta diferença na sua vida. Se tivesse ou não, tanto faz.
Depois de se tornar um investigador renomado e aprovado pelos escalões da alta classe policial seu cotidiano mudou completamente. Mas acabou se acostumando com o tempo, com o dinheiro, com a propina.

Não dormia quando, no começo, se envolvia em omissão de casos com resoluções óbvias e comprovadas até por não-peritos. Mas dizem que o tempo é o remédio para todas as dores. E devia ser.
Às vezes, de supetão, levantava da cama molhado de suor e com a imagem das pessoas que havia visto em condições nada humanas. Casos que tinham conclusão omissa, conforme mandam as disputas por poder.

Entre umas poucas saídas e outras, Eduardo tinha uma amiga que se passava por sua namorada para participarem de casas de swing. Tinha de ter alguma coisa pra distrair daquela vida alternativa que escolheu para seu próprio conforto.

Basicamente tinha atração por mulheres que mandavam nele. Algo que tinha de fingir fazer o tempo todo em sua vida, durante o expediente. Mas era nos fins de semana que deixava-se mandar por outra pessoa que não a sua própria sombra, nem seu superior. Deleitava-se nos contos, nas contas, nas formas e nos dentes das mulheres mascaradas que rondavam por seu espaço. Tinha uma tara específica por bocas e dentes femininos, talvez se encaixasse num quadro de odaxelagnia ou algo do gênero. Preferia lábios médios aos enormes e dentes brancos aos amarelados.

Por entender mais do que gostaria sobre o sistema político e sua relação com o tráfico, omissão de informações, desvio de verbas e mortes compradas, seu estômago desenvolvera uma certa gastrite emocional. Tinha náuseas de pensar em algum desses esquemas. Muitas vezes seu trabalho era dar um falso parecer sobre a morte do cidadão, sentia-se como um açougueiro negligente. A ordem vinda de cima garantia seu gordo salário em troca de uma ficha suja de sangue, contendo mentiras das quais seus ansiolíticos davam conta de amenizar. Omeprazol e antiácidos sempre nos bolsos.

Ao esteriótipo externo, cidadão normal, bem vestido. As mulheres costumam acreditar em seu lado gentil e generoso. E não estão erradas totalmente. Por esse motivo consegue umas mordidas abusadas aqui e ali, mas não fixa-se a ninguém por medo de compartilhar suas visões mais obscuras ou encontrar alguém que o traga novamente o conforto de um sorriso, de um abraço sincero.

Sua última aquisição não foi o carro do ano, nem uma estradeira. Mas sim um abajur de canto, que lembrava muito os fins de tarde com seu pai, quando aprendera a ler. Filho único de pais falecidos, tudo o que remetia a uma anestésica nostalgia ele comprava, fosse o preço que cobrassem. De um lado do quarto, o piano lembrava sua mãe. Do outro, a poltrona que pertencia a seu pai trazia a calmaria depois de dias difíceis. Debaixo da cama, sua 9mm contrastava com o personagem que tentava ocultar do seu pequeno círculo de amizades.

Não é preciso muito para que afaste-se de alguém. Nunca se sabe com tipo de carne está lidando...


* Fragmento de um personagem que criei e que estará em algum romance em breve.. espero que gostem).


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Acabar

Segurando a mão direita de sua esposa, com sua velha mão esquerda, silenciava entre a gota de lágrima que caía sobre o tecido esverdeado de sua calça e outra que caíra, há pouco, sobre seus sapatos marrons.
A dor de uma lembrança que ardia em segundos, repaginando flashes de uma história inteira. Há mais de cinquenta anos transformaram sorrisos em ações, pensamentos em atos e se divertiram por tantos episódios que recheariam um livro imenso, maior que a Bíblia, melhor do que Shakespeare.

Sua dor era motivo suficiente pra cair nas graças das religiões escritas por homens, no pensamento obscuro do controle que tinha sobre sua vida, no que se arrepende de não ter feito.
Muito pouco, talvez. Poderia contar no dedo o que deixaram de fazer para tornar feliz o outro lado, mas isso pouco importava agora, que sua mão esfriava a cada minuto mais e o sol já não inundava o quarto do hospital com tanto fervor.

Nem nos momentos de maior solidão poderia descrever aquela imagem. Queria mesmo era acreditar que não via nada, não sentia, não existia.
Seus olhos pesados de alguém que tanto admirou a paisagem ao seu redor, eram agora acinzentados por nuvens de dúvidas, nuvens de abandono.

Por todos estes anos foram calço, apoio, degrau e pedra na vida um do outro. Todos os momentos bons haviam enobrecido os ruins, que dissolviam-se como areia neste momento tão particular. Um momento para decidir se morte é o partir, o pesar, a verdade.
Ou se é a passagem, o renascimento, a ilusão...

Por momento algum, desde que ficara doente, largou suas mãos. Antes delicadas por uma juventude macia e agora calejada pelas marcas do tato. Mas eram mãos que antes acalentavam, seguravam com a mesma vontade, as suas. E agora repousavam suavemente por entre seus dedos marcados pelo medo.

O medo da solidão, da negação. O medo de se ver só, sendo que por toda a vida havia depositado metade de tudo nas outras mãos. Eram quatro, eram dois, eram um.

Se o sentimento para descrever o abandono fosse arrependimento, certamente ninguém ficaria só.
Esse foi o risco que aceitou correr por amor. Essa foi a maneira que conseguiu apoiar e depositar suas esperanças que iam além da solidão.
Essa foi a escolha que talvez nem mesmo fosse sua.

Sabia que era o momento de chamar os médicos, fazer algumas ligações.. mas o efeito aniquilador do medo no amanhã o colocavam praticamente como concreto no chão. Deixaria as mãos, agora frias, para abrir a porta e encontrar o mundo visto de um lado só. Faria uma nova conta onde, um mais um, seria igual a um novamente.

Toda nebulosidade do momento extinguia seu próprio eu.
Todo momento negligenciava sua vontade de se mover... Mas era necessário.
Abriu as portas do mundo cinza e caminhou lentamente. A discrição mais afável para o que sentia era um tornado carregando seu coração ao centro e desintegrando pouco a pouco, jogando seus pedaços no ar.

Mas foi. Tinha que ir. Ali, no jardim do hospital...
E do sentimento se fez dúvida, quando o coração parou de bater e se encontraram, ou talvez não.
Do outro lado, ou em lugar nenhum.
Uma mesma história, ou nunca mais.



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Josias

O último trago no último cigarro do dia. Mentolado. Deviam proibir essas merdas..
Josias tinha uma certa afeição por formas claras e hipocondria da vida. O medo lhe tomava todas as entranhas e fantasias, assim como a obsessão pela masturbação.
De longe, um homem normal, mas quieto. Cara de quem tem muitos segredos guardados.
Bom, ter, tinha. Mas ninguém sabia.

Depois de ter virado corno, era  fato que sua feição dava dó ao homem mais ingênuo e afeminado do mundo. Mas até que a galhada lhe servia bem.
Descobriu assim: ao chegar em casa do trabalho notou que sua mulher, como havia acontecendo frequentemente, ainda não havia chegado. Conferiu a secretária eletrônica (sim, estamos no século vinte e um, mas Josias ainda não), deu um tapa em sua bituca de baseado e ligou o computador.
Por uma distração estúpida, ou seria proposital, de sua mulher, lá  estava a caixa de e-mails aberta, logada, suja e sacana. Palavras descreviam noites ininterruptas de uma paixão calorosa que, pelas contas de Josias, estava fazendo aniversário de oito meses.

Oito meses. Agora imagine só qual é o número que Josias nem pode ver pela frente...
Descobriu assim, pronto. Esperou sua mulher chegar para lhe fazer as malas.
Mas esqueceu que o mal-sucedido era ele e o apartamento, dela.
Despejado e envergonhado, Josias aceitou a situação e perguntou se poderia ficar por mais um tempo até se estabilizar. Júlia deixou. Mas agora levava o amante para seu quarto.
Josias viajava imerso num sentimento tragicômico sem explicação. Às vezes ouvia os gemidos do quarto ao lado. Ora ouvia somente uma longa conversa, o que nunca havia feito com Júlia.

De tanto fazer terapia, o próprio psicólogo ligava pra pedir conselhos e avisar que havia chegado erva da sua estufa particular.
Internamente havia um buraco em Josias. Mas ninguém perguntava, ninguém sabia.
Era mais um uniformizado na empresa que chegava cedo no setor, saía tarde. Não se divertia no coletivo.
Por essas e outras razões começou a ter certo gosto pela morte.
O problema é que era a morte dos outros. Ou melhor, das outras.

Josias conseguiu seu primeiro trinta-e-oito com o psicólogo, que substituiu algumas das sessões de terapia por aulas de tiro. Ficou tão bom no assunto que logo estava treinando com alvos móveis, caçando pássaros e coelhos.
Conservou todo o seu desejo por suspense pra usar depois.
E foi assim, depois de levar sua primeira vítima ao motel mais próximo, fizeram sexo, conversaram, ela lhe deu atenção e ele a pediu que lhe chamasse de corno.
Claro que ela recusou, mas a insistência de Josias a fez dizer. Com um estampido abafado se afastou, incrédulo e sem reação. Pintou o número oito no abdômen da vítima com um pincel atômico e fez um smile em baixo, pra descontrair o ambiente.

Degustava uma sensação de medo, dor, alívio, sinceridade... quem era Josias? Se perguntou por mais trinta minutos até que chamou ao telefone, a carta de vinhos. Pediu o mais caro e deliciou-se. Olhava a mórbida cena.
Bizarra e grotesca.
Mas de certa forma havia achado o que procurava há tanto tempo.
De corno para doido varrido psicopata... ou não seria um doido?
Uma já havia sido...restavam sete. Mas por que raios tanto trauma com a galhada?!

Assim Josias começou o seu novo "trabalho". Sempre de formas diferentes.
Até hoje não sabem que é o seu rosto bobo e seu corpo franzino a última visão das vítimas.
E nem vão desconfiar.
Mas este, leitor, é segredo nosso.
Josias nem faz ideia que eu contei seu maior segredo a vocês.

E fim.



terça-feira, 25 de setembro de 2012

Despido

O tempo passa devagar, pareço caminhar descalço sobre uma rocha cheia de limo
Onde não vejo o fim, não entendo o fim
Entre os vãos que eu encontro e acho que consigo pular..
Aparecem pontas afiadas que me desafiam a pisar

Me lembro de poucas histórias pra contar
De muitas pra sonhar
Porque o anseio é o pensamento no amanhã
E quando se vive o presente a dor é menos branda

Meu entusiasmo é ouvir as histórias que eu não vivi
É sentir aromas que pensava não existirem
Sabores que sobressaem aos dissabores dos erros
Jogando fora o fel que você me presenteia

Se, quando pensares mal de mim, delicia-se,
Lembre-se de que posso também me dar ao luxo de saborear-te
Sobre a mesa com a maçã posta na boca
Pra que não saia mais nenhuma fala estúpida por entre os dentes e língua

E não se esqueça que amanhã é um outro presente
Já não será mais futuro, será o agora
Porque o agora que escrevo, nunca mais será o mesmo



* Voltando, devagar e sempre, a escrever... 
Obrigado aos que acompanham.. Luz pra nós.

Grande abraço



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Samba pra rua



Eu quis ver você passar
Fui pra perto da rua
Teu carnaval era tão solto
Que logo me encantei

Nas ruas todos falam dela
Os bordados, as fitas, os dons
Não precisa luz de passarela
Sampa cinza e tijolo marrom

Ela sabe que eu quero
Fica difícil, assim, disfarçar
Janela, flanela, festa de rua
Sorriso e samba no tom, no tom...

Percorro pra perto do mar
Areia dissolve em centenas de grãos
Faço abraço de braços e mãos
Sugiro, te peço, te sinto ou não


domingo, 19 de agosto de 2012

Personagem

Por certo, seu gosto refinado fazia com que aromas dos mais porcos tornassem perfume dos mais suaves quando bem entendia. Uma estranha obsessão por ler as coisas de trás pra frente e por números múltiplos de nove o mantinham na linha da calma durante tempo integral.

Fazia-se entender em público perfeitamente, quando expressava-se de forma adequada às normas da sociedade. Aliás, seu discurso era impecável como o de um candidato a presidência. Talvez pelo fato de dizer coisas ordenadamente, porém, não necessariamente fazendo sentido algum. Convencia.

Atraíam-no loiras, às vezes morenas. Menos as ruivas e tentava fazer-se entender o motivo dessa complicação ao chegar no prostíbulo mais próximo. Vez ou outra a lembrança em imagem de uma batina com melenas ruivas se apossava de seus pensamentos. O toque enjoativo daquele padre em seu corpo frágil e nu, seu corpo de criança.. Talvez as informações cruzassem neste ponto. Ainda assim, mantinha-se hétero. Mas não frequentava a igreja desde que atingira a maioridade.

Seus costumes eram preferencialmente escuros, revezando entre tons de cinza, preto e marrom. Hábitos noturnos. Digestão lenta e imprecisa. Frequentemente encontrava-se com dores abdominais, fruto de um recorte mais preciso de seu talento para a cozinha. Especialmente comidas cheias de gordura e cremes.

No seu dia-a-dia fazia de seus horários de trabalho, um meio fácil e divertido de ganhar um dinheiro derivado de figuras públicas. Figuras escrotas.

Trabalhava nos bastidores de um esquema simples e corrompido. Pessoas ligavam-se obrigatoriamente a ele, vez ou outra, por ser parte essencial em uma equipe de chantagistas profissionais. Mas preferia trabalhar sozinho, assim como divertia-se nas horas vagas.

Quando menos se espera, você cruza com ele em um corredor movimentado do shopping, mais precisamente em frente a vitrine de batedeiras elétricas, mesmo sem saber que colecionava diversos modelos e cores destas peças. Lembrava sua mãe, confeiteira de primeira mão.

Quando calado, cidadão comum. Quando falante, persuasivo em seus versos e referências poéticas, muitas das quais inventava as frases e autores. Mas você não ousaria duvidar de sua precisão com as entonações de voz que oscilavam milimetricamente por entre a língua e dentes amarelados pelo fumo de charutos.

E pode, ainda, encontrá-lo.
Se tiver a sorte de não ser por motivos profissionais, deleite-se com um discurso redundante e seus gestos desengonçados. Ria por dentro, mas não ouse demonstrar seu riso por fora. Ele cozinha bem.. e nunca se soube a procedência exata da carne do seu estrogonofe.